UFSM abre primeira turma de chinês para a comunidade externa

UFSM abre primeira turma de chinês para a comunidade externa

Fotos: Vinicius Becker (Diário)

O som de palavras desconhecidas, traços que se transformam em ideogramas e a curiosidade que une pessoas de diferentes idades. Assim começam as aulas de chinês na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que, neste semestre, chegaram pela primeira vez à comunidade externa.

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As aulas acontecem na CLEC Smart Classroom, espaço inaugurado em abril de 2024, equipado com recursos tecnológicos que aproximam os alunos da cultura e da língua chinesa. O curso é ministrado por professoras nativas, que chegaram ao Brasil por meio de uma parceria entre a Universidade Normal de Hebei e o Center for Language Education and Cooperation (CLEC).

O diretor de Relações Internacionais da UFSM, Paulo Bayard Dias Gonçalves, destaca a importância do convênio: 

— Nós temos um acordo de pesquisa em que equipamentos e materiais de consumo são financiados pela China. Nesse convênio do CLEC Smart Classroom, que contempla ensino de língua, cultura e medicina tradicional chinesa, o país enviou todos os equipamentos e custeia as professoras. A universidade entra com a alimentação no Restaurante Universitário (RU) e a moradia. É muito vantajoso para nós. Antes, tínhamos apenas turmas voltadas à comunidade interna, mas agora abrimos para o público externo e queremos expandir ainda mais — afirma.

Foto: Vinicius Becker (Diário)


Objetivos dos cursos

Foto: Vinicius Becker (Diário)


Atualmente, a UFSM oferece três níveis de ensino: Chinês 1, Chinês 2 e Chinês 3, com 60, 30 e 30 vagas, respectivamente. Cada turma tem carga horária de 45 horas. O objetivo das aulas iniciais é capacitar o estudante a se comunicar em nível básico, com temas que vão de cumprimentos e apresentações pessoais até interações sobre transporte, clima, alimentação e trocas comerciais.

Já os níveis mais avançados buscam aprofundar a compreensão da língua e dos ideogramas, além de aproximar os alunos da cultura chinesa em situações sociais cotidianas.


O olhar dos alunos


Foto: Vinicius Becker (Diário)


No caso da Turma Chinês 1 – Comunidade Externa, as aulas começaram em agosto e acontecem nas terças e quintas-feiras, das 14h às 16h, no prédio 16, do Centro de Educação (CE).

Entre os 15 alunos da turma, está Laura de Brum Carlan, 16 anos. Esse já é o quarto idioma que ela se propõe a aprender e, para ela, o chinês representa uma oportunidade rara, com grande peso no cenário global e em sua futura carreira. Ela destaca a importância de acumular conhecimentos. Segundo ela: ‘quanto mais, melhor’.

— Especialmente no cenário global que vivemos hoje, acredito que aprender chinês será algo muito importante para a minha carreira e, talvez, até para o meu futuro. Também penso que conhecimento sempre é bem-vindo: quanto mais, melhor. Então, por que não aproveitar essa oportunidade tão boa e rara? A professora é muito querida e a turma, bem dinâmica, o que torna mais fácil aprender uma língua tão diferente. Por enquanto, a pronúncia está sendo um pouco desafiadora para mim, mas espero superar isso — afirma.


Laura de Brun Carlan, 16 anos, estudante de ensino médioFoto: Vinicius Becker (Diário)


A mestranda em Estudos da Linguagem Laura Catalina Peña Ramírez, de 28 anos, é natural da Colômbia. Ela vê na experiência uma forma de ampliar horizontes.

— As línguas orientais têm muito a ensinar, porque não aprendemos apenas um idioma, mas também uma cultura. Estou há dois anos no Brasil e achei incrível ter essa oportunidade em Santa Maria. A pronúncia é difícil, mas, com a ajuda da professora, a gente vai progredindo — avalia.

Laura Catalina Peña Ramírez, mestranda em Estudos da LinguagemFoto: Vinicius Beckert (Diário)



Bernardo Boucinha Bernardi, 36 anos, professor de Relações Internacionais, vê no curso não apenas um impacto acadêmico e social, mas também uma oportunidade pessoal. Estudante de chinês há 15 anos, com passagens pela China, ele aproveitou a chance de se inscrever na turma aberta à comunidade externa. Morando perto da UFSM, destaca a qualidade das professoras nativas, o material impecável e o acolhimento em sala de aula como diferenciais do programa.

— O ensino aberto à comunidade é uma oportunidade vital não só para o mercado de trabalho, mas para compreender o mundo de hoje. A China é o principal parceiro comercial do Brasil e precisamos construir pontes de amizade e conhecimento. A qualidade das aulas é excelente e a universidade acerta ao expandir o pilar mais eficiente da instituição, que é o da extensão, então é um jeito de levar os conhecimentos que a gente adquire aqui dentro para a sociedade, para ter ganhos reais.


Bernardo, 36 anos, professor de Relações InternacionaisFoto: Vinicius Becker (Diário)



Professores nativos e novas perspectivas

Professora Jia ZHANG durante aula de Chinês 1, na Smart Classroom da UFSMFoto: Vinicius Becker (Diário)


Durante a aula, todos os olhares se voltam para a professora Jia ZHANG, 22 anos, que conduz as explicações. Ela dedica boa parte do tempo à prática da pronúncia, e faz com que os alunos repitam sons e treinem a entonação de cada letra do chamado alfabeto chinês. O trabalho é fundamental, já que, segundo a docente, as maiores dificuldades dos estudantes estão, justamente, na sonoridade das palavras e na escrita dos caracteres.

— Encontramos muitos desafios na pronúncia e na escrita, mas com prática e esforço tudo é possível. Para aprender uma língua, não existe limite de idade ou formato, o mais importante é a resiliência. Não pode desistir — reforça.

Atenção para a pronúnciaFoto: Vinicius Becker (Diário)


Xingxing LI, 44 anos, que está há nove meses em Santa Maria e leciona os níveis mais avançados, ressalta o papel da iniciativa para o intercâmbio cultural. 

— É um projeto muito importante e de longo prazo, porque aprender uma língua exige tempo e prática. Mas, além disso, o que mais importa é o entendimento entre culturas diferentes. Não existe cultura boa ou ruim, mas, sim, a necessidade de compreender o outro para construir relações melhores no futuro — avalia.

Há nove meses em Santa Maria, Xingxing LI afirma que o aprendizado de línguas vai além da gramáticaFoto: Vinicius Becker (Diário)


Ela também compartilhou a própria experiência de adaptação: 

— Quando cheguei, não falava português, apenas inglês e chinês. Foi difícil no início, mas agora já consigo ler cerca de 70% da língua. Ainda tenho dificuldades na fala e na escuta, mas sigo praticando. Espero um dia poder ensinar português na China — diz.


Foto: Vinicius Becker (Diário)


Demanda da comunidade surpreendeu


Para Gracielli Ester Mainardi, administradora na Diretoria de Relações Internacionais da UFSM, a abertura das turmas presenciais de chinês representa a consolidação de um projeto que já vinha sendo construído ao longo dos últimos anos. Segundo ela, desde 2021 a universidade oferece cursos online, e agora, iniciativa alcança um novo nível.

— Ter hoje uma sala de aula oferecendo cursos presenciais é a evolução de um projeto que já tem praticamente cinco anos. E, agora, estamos dando mais um passo na evolução do programa, que é a oferta de cursos para a comunidade. Isso é muito importante porque a China vem se consolidando como uma potência econômica mundial e nós temos a possibilidade de proporcionar essa qualificação para a comunidade acadêmica e, agora, também para comunidade externa para toda Santa Maria.

E a abertura de vagas ao público externo foi grande. Gracielli lembra que, em editais anteriores, já surgiam questionamentos sobre a possibilidade de participação da comunidade em geral, mas nunca em grande número. Desta vez, a resposta superou as expectativas: 40 pessoas se inscreveram para apenas 15 vagas na turma.

— Foi realmente uma resposta maravilhosa que a comunidade nos deu. Isso mostra que existe uma demanda real e crescente pelo aprendizado do chinês em Santa Maria. Para nós, é gratificante ver esse retorno tão positivo.

Foto: Vinicius Becker (Diário)


Você sabia?

A língua chinesa não é um idioma único, mas, sim, uma família linguística formada por 10 variações que, muitas vezes, não têm relação direta entre si. A principal diferença está na fonética, mas também há distinções de vocabulário. Essa diversidade pode ser comparada às línguas românicas ou germânicas: há semelhanças entre elas, mas nem sempre um falante de português, por exemplo, consegue compreender italiano ou alemão.

Estima-se que cerca de um quinto da população mundial tenha o chinês — em alguma de suas formas — como língua materna. Isso faz dela a mais falada do planeta, ainda que não seja a mais difundida internacionalmente. Os 10 idiomas que compõem esse grupo linguístico são: Wu, Gan, Xiang, Min, Hakka, Yue, Jin, Huizhou, Pingua e Mandarim — este último o mais conhecido e estudado no Ocidente.

Além dos idiomas, também existem variações regionais, comparáveis às diferenças entre o português falado no Brasil e em Portugal. Entre os principais dialetos estão: o Mandarim, idioma oficial de Pequim e o mais falado em toda a China; o Cantonês, presente em Cantão, Hong Kong e Macau; o Xangainês, típico de Xangai e região; o Sichuanês, do centro do país; e o Hakka, falado em províncias como Fujian, Hainão e Jiangxi, além do sudeste chinês.

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